sábado, junho 3

318. Anglice loqui

(Roma, mãe de todos os latinos)

«É muito sabida a influência enorme que o helenismo exerceu sobre a Itália, onde eram imitados da Grécia os costumes, literatura, teatro, a indumentária, a cozinha, etc., etc.; importava-se tudo que era grego, omnia graece, como disse Juvenal. A língua helênica devia ser ensinada às moças nas escolas a que Tito Lívio se referiu. As romanas exprimiam a cólera, a alegria e as preocupações nesse idioma: hoc iram, gaudia, curas effundunt (Juvenal, Sátira IV). Esse poeta satírico se revoltava e julgava indecente que uma velha se expressasse em grego: Non est hic sermo pudicus in vetula (ibidem). Houve longa reação contra a língua e contra os costumes helênicos. Entre os reacionários [?] estava Catão, o antigo, que finalmente foi obrigado a ceder e aprendeu grego aos oitenta anos de idade.»

Extraído do Almanaque do Correio da Manhã 1955 (do tempo que os jornais ainda se preocupavam com cultura e não somente em encartes perfumados ou inserções comerciais de grandes empreendimentos imobiliários) (vide Post scriptum no final do texto)

Ser-me-á muito dolorido ter de aprender inglês de forma séria. Não por puro anti-americanismo, mas porque, frente às línguas latinas, a considero quase incompleta, pobre de vocabulário. O inglês apresenta-se-me como uma língua de auxílio, um patoá para o comércio, nunca uma língua de cultura. Se há os que gostam, não os censuro, mas as menininhas que entram nas escolinhas de inglês da vida e põe-se a escrever num inglês truncado e entrecortado, isso sim, é de irritar profundamente. Orlando, numa das tertúlias quase diárias, citou-me exemplo de escritores que abandonaram o inglês em detrimento da sua língua própria. Evidentemente que eram todos escritores que haviam abandonado inclusive a terra de onde eram originários, como Vladimir Nabokov.
O que me dói é que o inglês não está aparecendo como uma nova língua de cultura - como fora o francês até a década de 1960 e ainda o é em parte, ou o italiano - o inglês que é ensinado é um inglês voltado às ciências argentárias única e exclusivamente. Ensina-se nas escolas como perguntar o preço das coisas, como pechinchar, mas não se toca em uma única linha de Shakespeare ou Chaucer. Pergunte-se a alguém desses cursos sobre o antigo pronome thou e não obterá resposta alguma. Além do mais, aprendem esse inglês de mercearia - da Mercearia Universal que estamos a transformar o mundo! - e viram as costas ao vernáculo. Notórios são os erros de ortografia e pronúncia, os pronomes mal colocados, os verbos mal conjugados e por aí vai.
Mais recentemente - coisa de já uns anos - surgiu uma escola de inglês em São Paulo que «propaga» o inglês como língua universal (para mim, o idioma que tinha - e tem - esse epíteto é o esperanto) e isso muito me assusta. É o poder econômico sobrepondo-se às preferências lingüísticas pessoais. Aprende-se inglês porque é tido como necessário. O que me consola é que assim, o inglês jamais se tornará língua de cultura - não porque não mereça, mas pelo verniz comercial que lhe aplicam: será sempre um patoá para o comércio, como fora a língua geral nas costas brasileiras à época colonial. Precisamos do inglês somente para ler alguns manuais de instrução de aparelhos eletrodomésticos e entender algmas mensagens de erro de computador. Nada mais.
Creio solidamente que o inglês não substituirá as línguas nacionais, como é propalado por alguns - ouvi alguém comentar tal dito de um lingüísta. Tanto como não creio que em 50 anos estaremos falando um amálgama de castelhano e português - como deve ter dito algum outro.

E espero ainda não terminar como Catão, o velho.

P. S.: faço ressaltar ainda a minha preferência para a pronúncia do latim, sendo para mim, a eclesiastica (ou italiana) preferível à reconstituída (usada nas Universidades).

4 Comentários:

Blogger Onapomona disse...

Hum... belo template verde (rs)

domingo, junho 04, 2006 4:05:00 da tarde  
Anonymous Donato disse...

A língua inglesa não é pobre de vocabulário, Sérgio. O que acontece é que é cheia de "enxertos" estranhos. Algumas de suas construções, para um falante de língua neolatina medianamente culto, podem parecer de um hibridismo desconcertante. Porém, o inglês de filme não pode servir como parâmetro para se avaliar o conjunto do idioma, pois apresenta vocabulário depauperado e abusa da polissemia meio preguiçosa do cotidiano. Seria o mesmo absurdo que julgar a língua portuguesa em geral a partir das novelas da Globo. Estamos em uma época de comunicação de massa onipresente e aviltamento da educação: é natural que todas as línguas sejam afetadas por certa simplificação incômoda.

Se alguém me achar conservador ou "reaça" pelo que acabei de dizer, paciência...!

domingo, junho 04, 2006 11:05:00 da tarde  
Anonymous Sissi disse...

Uma vez uma conhecida me disse "minha maior dificuldade é colocar tudo que penso em português no enxuto inglês".

Sou obrigada a aprender inglês também, amigo Sérgio, compactuo das suas idéias.

Além disso, respondo em latim e espanhol para minha professora de inglês. É automático e, segundo a sintaxe, natural que você use a 2a língua quando aprende uma terceira.

segunda-feira, junho 05, 2006 5:36:00 da tarde  
Blogger Sergi-Domenech Ferrer i Vernau disse...

O inglês é na veradade uma língua românica... é quase,,,

sexta-feira, junho 09, 2006 12:44:00 da tarde  

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