quarta-feira, junho 21

324. Fragmenta miseriae hominis

I
Vai o trem, cortando a névoa em direção a Rio Grande da Serra. Os passageiros, sentadinhos, quietos e comportados. Não há nada para olhar, os vidros parecem leitosos e opacos. Não há nada para olhar, não há nada para dizer, nem nada a sentir. O fundo do bolso nega-me alguma moeda ou o molho de chaves para que a minha mão distraia-se. «Depois de Paranapiacaba, há um abismo», diz alguém no fundo do vagão - «e depois, no fundo do abismo, há o mar» diz outra voz; é o mar onde me diluo, é o mar que só acaba em África, léguas e léguas de desolação azul. Uma vozinha, duma criança que vem andando tropegamente pelo vagão, com passinhos inseguros, apoiando as mãozinhas de dedinhos roliços, pára diante de mim e diz num tom baixinho e com indescritível candura: «Sabe, moço, eu acho que não há nada do que eles dizem... você vê algo lá fora?». Realmente não se via nada. Quando olhei, a graciosa criança continuava seu passeio bamboleante por entre as poltronas.
Olhei pela janela e não vi nada que não fosse a névoa leitosa ou no máximo a silhueta borrada e veloz de algum poste ou instrumento de tráfego junto dos trilhos, fora isso, o resto estava diluído na névoa densa; nada mais se ouvia além do roçar infinito das rodas contra os trilhos e nas suas eventuais falhas e emendas, produzindo os característicos claques e baques; e eu não sentia nada além duma sonolência fortíssima da qual não podia defender-me.
O trem ia cortando a névoa, em direção a Rio Grande da Serra, os passageiros, quietos, comportados e sentadinhos. Adormeci.

II
O mundo me parece um desfile de metáforas mal-feitas valsando músicas desconexas. Umas gritam e outras pegam fogo; outras tão-somente flutuam, outras sobem em pedras e declamam discursos incôngruos e pomposos. Há ainda as que escorrem e untam o chão com seu sangue gorduroso: têm rodas como os ônibus mas são caixas de sapatos. São musas com insuportável odor de querosene, poços de petróleo que jorram suco de laranja. Há as que vêm por telefone, malditas!

3 Comentários:

Blogger Jeferson Ferreira disse...

texto rico e ordenado. correto sem ter a sintaxe dura. belo.

quarta-feira, junho 21, 2006 12:40:00 da tarde  
Anonymous Cris disse...

Desculpe escrever aqui sobre o texto do Banespa...

Eu passei por essa dita situação também, igualinha, há uns 6 anos.

Hoje recebi uma cobrança do Banespa dizendo que eu tenho um débito de mais de R$ 200,00.

Ninguém merece...

Volto a agência.

quinta-feira, junho 22, 2006 10:23:00 da manhã  
Blogger Sergi-Domenech Ferrer i Vernau disse...

Jeferson,
Grazie mille.

Cris,
Banco, nenhum é bom, mas o Banespa me saiu daqueles... por sorte está tudo cancelado com eles... se você tem o termo de encerramento, esfregue-o na fuça deles... boa sorte!

sexta-feira, junho 23, 2006 1:45:00 da manhã  

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