quarta-feira, abril 12

292. Curta fábula urbana (II)

O pernil de porco

Jacó saiu de casa envolto num capote preto do pai. Apesar do calor de verão, seguia pela calçada envolto no agasalho. Caminhou e caminhou até chegar a porta duma churrascaria; hesitou a entrar e o maître já lhe fazia sinais de chamamento. Entrou. «O senhor quer que lhe guarde o agasalho?», perguntou amável o maître. «Não, não, estou melhor com ele. Obrigado», respondeu o suado Jacó. Sentou-se numa mesa isolada, atrás dum vaso onde havia plantado um coqueiro, e com as abas do capote levantadas, que lhe cobriam o rosto, virou o indicador da mesa: verde, livre para as carnes. Aproximou-se o primeiro garçom: «Picanha?», «Não, obrigado», rebateu Jacó. Mais um tempo, outro garçom: «Maminha a vinha-d’alhos, senhor?», «Não, ’brigado». Mais um tempo. «Lombo, senhor?», indagou o garçom a Jacó. «Lombo suíno?» indagou Jacó com os olhos avermelhados por detrás da gola do agasalho. «Sim-senhor: lombo suíno», «Então me dê um pedaço bem generoso…». Jacó observava o talhe da faca penetrando pela suculenta carne de porco, a gordura líqüida pingava copiosamente. O garçom, depois de cortar, deixou o pedaço fumegante no prato de Jacó e foi se afastando. Jacó mirava o pedaço de carne assustado. Tomou o garfo e a faca. Olhou de novo para o pedaço. Levantou a mão para outro garçom. «Sim?», «O senhor me faça a gentileza de trazer uma água tônica, por favor», «Pois não». Agora com um copo de água tônica, garfo e faca, Jacó corta um pequeno pedaço da carne já não tão mais fumegante. Olha para o pedaço espetado no garfo. Leva-o próximo ao nariz, sente o olor. Algumas pessoas, à distância estão observando o estranho comportamento do rapaz enrolado num capote – e com um calor daqueles! Jacó simplesmente enfia o pedaço na boca e mastiga-o com toda força; e viu que era bom. Começou a atacar com voracidade o que havia no prato e em pouco tempo saboreou cada centímetro cúbico de carne suína. Terminado, pagou a conta e foi para casa; dando de cara com o pai na porta, pega-o pela lapela do paletó e grita-lhe na cara, transtornado: «Eu não posso mais ser judeu!». Moral da história: nada vence a gula.

2 Comentários:

Anonymous dani disse...

mas sabe que você tem a maior cara de judeu, sérgio?

nada pessoal. o importante é que tem saúde.


^_^

domingo, abril 16, 2006 1:24:00 da manhã  
Blogger Sergi-Domenech Ferrer i Vernau disse...

Dani,
Pois é, Dani. Até a minha mãe (a minha mãe, meu Deus!) já me disse isso. Mas ela foi mais específica: judeu francês. rs.

domingo, abril 16, 2006 7:37:00 da tarde  

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