segunda-feira, janeiro 2

237. Auferstanden aus Ruinen

Não sou muito de crendices, e as de fim-de-ano irritam-me particularmente. Aquela baboseira toda de comer lentilhas - nada contra elas em si, até me aprazem - , pôr folhas de louro na carteira, ou então três lentilhas ou feijões crus na carteira também, ficando a sua carteira com o risco de ficar entupida de gêneros alimentícios e não de dinheiro. Fora as manias de engolir três ou sete uvas passas, uvas, castanhas de uma vez e sem mastigar. O máximo que você conseguirá com tal é uma visita de última hora ao pronto-socorro. Fora as cuecas brancas, roupas brancas e outras asnidades de igual magnitude.
Também não sou muito de previsões e correlatos, mas confesso que no dia 31, ocorreu-me um fato bem estranho. Eram entre dez para as onze e onze e cinco da noite, no máximo; estava lendo para variar, tentando terminar o Êxodo do Velho Testamento - afinal, a Bíblia é Literatura também - quando a palavra éfode aparece nas descrições de como tinham de ser as roupas dos sacerdotes do tabernáculo que Deus mandara construir, ou seja, quase o final do livro. Assolado pela dúvida, busquei o tomo correspondente da onisciente Larousse-Cultural. A palavra não consta da até então infalível e dogmática Enciclopédia. Apesar da dúvida que ainda me transtorna, voltei à leitura, não sem antes anotar no guia de leitura - que é na verdade alguma folha de sulfite que dobro e faço de caderno de anotações - o capítulo e o versículo onde aparece a palavra, que inclusive aparece algumas vezes depois.
Girei algumas folhas do tomo da Enciclopédia e deixei-a aberta enquanto retomava a leitura. Li mais alguma coisa e quando olho a Enciclopédia aberta, meus olhos se pousam exatamente sobre o verbete Eisler, Hanns. Deu-me um baque; eu conhecia sim aquele nome e automaticamente fiz o enlace. Hanns Eisler é o compositor que fez a música do Auferstanden aus Ruinen, o hino da velha República Democrática Alemã (RDA ou DDR para os íntimos). Eisler, Auferstanden. O velho hino fala de «renascer, erguer-se das ruínas», de construir o futuro, de ter paz e liberdade, de união, de nova vida. E não é como os outros hinos dos outros países socialistas, não há referências directas ao Socialismo, nem a Lênin, nem a Stálin; a menção do hino é o renascimento da Alemanha como nação, das cinzas e ruínas da guerra, de caminhar confiante num futuro e até cabe a imagem de um sol fulgurante. Deixo-vos, como augúrio de ano-novo, meu, para vocês.

Auferstanden aus Ruinen
und der Zukunft zugewandt,
laß uns dir zum Guten dienen,
Deutschland einig Vaterland.
Alte Not gilt es zu zwingen,
und wir zwingen sie vereint,
denn es muß [wird] uns doch gelingen,
daß die Sonne schön wie nie
über Deutschland scheint.

Glück und Frieden sei beschieden
Deutschland, unserm Vaterland.
Alle Welt sehnt sich nach Frieden,
reicht den Völkern eure Hand.
Wenn wir brüderlich uns einen,
schlagen wir des Volkes Feind.
Laßt das Licht des Friedens scheinen,
daß nie eine Mutter mehr
ihren Sohn beweint.

Laßt uns pflügen! Laßt uns bauen,
lernt und schafft wie nie zuvor,
und der eignen Kraft vertrauend
steigt ein frei Geschlecht empor.
Deutsche Jugend: bestes Streben
uns'res Volks in dir vereint,
wirst du Deutschlands neues Leben,
und die Sonne schön wie nie
über Deutschland scheint.

Em português:

Levantamos das ruínas,
E um futuro a conquistar,
Doaremos o melhor de nós,
Alemanha pátria unida.
Precisamos fazer da nossa
força uma união.
E devemos iniciar uma nova era,
Como um Sol que nunca brilhou
Sobre a Alemanha.

Alegria e paz são as nossas metas,
Alemanha nossa pátria.
Todo o mundo deseja a paz,
O poder popular em nossas mãos
E a nossa fraternidade unida,
Derrotaremos os inimigos do povo!
E a luz da paz sempre brilhará.
E que nunca mais uma mãe chore
Por seu filho.

Que os arrados e fábricas,
Estejam em nosso poder, pois nunca os tivemos.
E esse poder nos sejam confiados
e iniciar um novo caminho.
Juventude alemã: Melhor empenho
Junto com todo o povo,
E assim uma nova vida à Alemanha.
E um sol que como nunca
Brilhou na Alemanha.

Letra e tradução extraídos da Wikipédia em português.

6 Comentários:

Blogger senhoritah disse...

muito bem, da bíblia ao socialismo: 2006 promete.

(mas que, realmente, o sol saia por aí brilhando. dessa vez com menos comedimentos.) besos.

terça-feira, janeiro 03, 2006 8:41:00 da tarde  
Blogger Sergi-Domenech Ferrer i Vernau disse...

Esperemos, Madamoiselle H, esperemos.

quarta-feira, janeiro 04, 2006 8:33:00 da manhã  
Anonymous dani disse...

eu também não acredito em nada disso, mas se me falarem que comer cocô dá dinheiro, eu tou comendo.

quarta-feira, janeiro 04, 2006 9:03:00 da manhã  
Blogger Sergi-Domenech Ferrer i Vernau disse...

Vê, Dani.

Merda por merda, prefiro as coisas do jeito que estão. Eu, hem!

quarta-feira, janeiro 04, 2006 10:58:00 da manhã  
Blogger sem cantigas disse...

éfode também não encontrei no Dic. Lingua Port. Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, supostamente o melhor!
e o significado da palavra, ficou por aí?
bom ano, as passas e os cócós são pra enganar!

sexta-feira, janeiro 06, 2006 10:15:00 da tarde  
Anonymous ds disse...

O Caldas Aulete não é o Altíssimo, mas, completíssimo, nunca falha; traz, além do verbete para "éfode" - faço votos de que as proparoxítonas continuem acentuadas! -, uma ilustração do traje, em canto de página. Transcrevo a definição : "espécie de sobrepeliz que usavam os sacerdotes hebreus por cima do vestido"; e a indicação etimológica : do hebraico Aphad (vestir).
O Zingarelli também contém a palavra "efod"; "nella liturgia levitica dell'Antico Testamento, paramento sacerdotale privo di maniche indossato solo dal sommo sacerdote".
Enfim, agora que há igrejas que permitem que seus pastores preguem vestidos de Bozo, essas coisas estão, definitivamente, mortas.

domingo, janeiro 08, 2006 1:27:00 da manhã  

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