quinta-feira, julho 6

327. Poësia plus-quam-vagabunda

Portão

«Eh, dom Luís, como está?»
Ele fecha o portão,
põe a mão nos bolsos,
alinha-se na calçada
e olha para o vizinho.
«Vou como manda o dia,
se vai frio numa manhã d’inverno
ponho o cachecol
se vai calor, deixo a blusa
pendurada na cadeira
e se chove,
pego o guarda-chuva.»

«E mais nada, dom Luís?»
Ele conversa
como quem tira o pó dos móveis.
«Nada mais além,
se o dia chora,
choro eu também;
se o metrô está cheio,
encolho os ombros...
bem, já são horas,
e devo ir,
pois elas não voltam,
ademã!»
«Ademã, dom Luís,
fique com Deus»;
«Igualmente.»
E desce a rua
em direção à avenida
com um desengonçado
passo de valsa;
assoviando qualquer coisa.

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