sexta-feira, julho 14

332. Curta fábula urbana (VII)

Casa nova

Fechou a porta atrás de si, girou a chave e trancou. Simplesmente não acreditava. Havia silêncio; se bem que o rumor dos carros e ônibus da avenida entrassem, mas eram longínquos e abafados. Cláudio ficou parado ainda com as costas apoiadas na porta, admirando o recinto, que cheirava ainda a tinta fresca. Os móveis nem eram novos, os comprara todos numa loja de usados, mas eram bons: um sofá forte do tipo que não se faz mais - só ele sabia o trabalho que tinha dado subir com aquele trambolho seis andares acima, pelas escadas, por que o bendito do móvel não cabia no elevador.
Tudo arrumado, tudo limpo, e, pela primeira vez ele ia sentar-se no sofá e dar aquela espreguiçada e ficaria deitado uma meia hora, ou um par de horas talvez. Ninguém pediria que ele se sentasse «direito» ou «se ia ficar ali, inerte e inútil»; bah! os malditos valores propagados do trabalho e da vida útil.
E estava tudo ali, havia arrumado os livros e os discos numa estante, um tapete marrom - que sua mãe odiaria, pois, «qualquer cisco que cai, fica parecendo um elefante!». Mas agora não precisaria ouvir mais as contínuas e diárias ladainhas a respeito de afazeres domésticos. São coisas que se faz em silêncio e indignas de qualquer ressalva ou comentário; não se sentiria mais rebaixado e reprovado quando passava na sala, pronto para sair, e escutava algum comentário reprobatório sobre indumentária e acabava sentindo-se coagido a mudar de roupa. Não, não mais.
Sim, sim, é família: pai, mãe, irmão, papagaio, avô e quintal. Mas chega um tempo que a famílias não precebe que há certos limites que têm de ser respeitados. E nem se se põe um posto de alfândega, consegue-se manter a família atrás deles, a ruptura é inevitável. Não pela briga, mas a ruptura da convivência contínua, desgastante. O fim das lições de moral inúteis - e qual moral? -, os «naqueles tempos sim, é que se tinha respeito» e «na época da Revolução se vivia melhor». Terminou. Cláudio tinha agora diante de si um tempo novo, um espaço novo, um tempo sem guia e um espaço sem governo, e uma janela sem grades. Agora, só tinha oito horas para se enfadar com os cretinos da loja, as outras todas eram para si e para o seu sono somente.
Parado, com as costas apoiadas ainda na porta, respirou profundamente e soltou o ar bem devagar, sentindo o pulmão dilatar-se e encolher-se. A respiração causou-lhe um certo incômodo sob as costelas, uma pontadinha; respirou profundo novamente: a pontadinha virou uma fisgadela e agora, mesmo parando voltando ao ritmo normal de respiração, a fisgadela vai crescendo e já é uma fisgada propriamente dita, tão logo, é já uma dorzinha contínua do lado esquerdo do peito que obriga Cláudio a levar a mão sobre o lugar. A dorzinha cedeu posto a uma dor considerável e aguda; algum tipo de incômodo passageiro, vai sentar-se no sofá, mas não vence os dois passos que separam a porta do sofá; a dor o genuflecte. Tenta apoiar-se no braço do sofá, mas termina de bruços no chão.
Essa foi a possível trajetória de Cláudio da porta ao sofá, segundo o laudo técnico da polícia científica; o corpo foi achado de bruços depois que os vizinhos reclamaram dias continuados sobre um cheiro horrível que vinha do apartamento e terminaram por chamar a polícia.

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