sábado, fevereiro 11

261. Compras


Voltas em lojas e supermercados confesso que é uma actividade que não pertence às minhas habituais e muito menos às minhas preferidas, ainda mais com o tempo chuvoso de hoje. O transtorno das poças que se formam, abissais, nas calçadas e as varetas quebradas dos guarda-chuvas.
Não obstante a chuva, hoje foi o dia de adquirir uma geladeira, em substituição à nossa velhinha, azul-celeste de fábrica, com 26 anos de serviços prestados a uma família que ela viu formar-se e crescer; mas paremos por aqui, pois sentimentalismo para com electrodomésticos não é absolutamente o que sinto e muito menos o que quero passar.
A busca ao novo modelo em si durou pouco. Com uma pesquisa anteriormente realizada, já sabíamos onde seria comprada a bendita da geladeira. Mas fui às compras com duas mulheres, minha egrégia genitora e minha caríssima irmã, ou seja, um giro panorâmico pelo shopping seria inevitável: duas horas olhando com enfado vitrinas uma depois da outra, andando por inércia. A um momento, passamos diante de uma loja de bolsas e umas malas chamaram-me o olhar, por serem aparentemente fortes e a bom preço. Viajo pouco, mas uma mala daquelas sempre faz falta.
— Olha, mãe... que mala boa!
— Hum... é, pois bem, parece grande, não...
— Sim, sim... cabe tudo aí dentro... até o Cristo.
A menção ao Cristo foi absolutamente acidental.
— O Cristo...? - voltou-se a minha mãe.
— Sim, sim... mas picado, certamente...
Depois disso, demos de ir ao supermercado e correndo a vista pelas gôndolas, dou de cara com uns bonecos, daqueles que se dão aos infantes, de borracha, dentro da sua embalagem que consiste num cartão grande e um plástico mais forte que envolve o cartão e tem uma «bolha» no formato do boneco. O formato dos bonecos chamou a minha atenção, havia algo de estranho. E realmente havia. Os bonecos todos eram de uma série chamada O Exército de Deus (em letras garrafais como se fosse o nome dum desenho animado) e havia reproduções à moda de desenho animado de personagens bíblicos: Davi e Golias (nota bene, na mesma embalagem), Adão e Eva (com umas horríveis folhas de parreira sobre a genitália que estão mais para folhas de câmanho e a Eva ainda conta com um adicional não previsto nas Escrituras, uma espécie de soutien, para que se mantenha o decoro entre a petizada evangélica) e finalmente, Noé, acompanhado duma pequena arca também em borracha, mas desproporcional ao tamanho do boneco. Juro que saí do mercado um pouco aturdido.
E para finalizar a jornada de alvissareiros acontecimentos, apesar de já termos comprado a nova geladeira, olhávamos por curiosidade algumas outras expostas no mercado, umas que pareciam uns foguetes de tantos botões e apetrechos. Eu abrira uma e olhava suas divisórias interiores, aquelas grades, locais próprios para colocar ovos, garravas, verduras, tudo explicado graficamente no interior do aparelho por pequenos ícones, um representante uma garrafinha, outro representante uma minúscula cabeça de repolho - conclusão inclusive, à qual cheguei depois de alguns minutos de atenta observação. Junto de nós, havia ainda um casal a olhar as geladeiras ali expostas. Ex machina apareceu um vendedor - se houvesse fumaça, eu diria que foi uma brincadeira muito da sem-graça da Providência Divina - apareceu o vendedor e acostou-se ao casal, particularmente à jovem senhora:
— Eu posso lhe ajudá-la?
Eu a dois passos, apesar do meu português atrofiado - mas que me esmero em poli-lo todos os dias - quase tive uma síncope e olhei aterrado para o vendedor, acho que um olhar semelhante àquele que seu faria se um dos refrigeradores tivesse tombado sobre mim. Certamente ele percebeu o meu olhar, mas o interpretou como lhe aprouve:
— E o senhor, precisa de alguma informação?
— Eu? - perguntei acordando do pasmo; e apesar de estar fuçando nas geladeiras, não consegui dizer nada que fosse menos convincente:
— O senhor sabe onde estão as meias?
Ele olhou-me um pouco assustado e disse que estavam nos têxteis e não junto dos electrodomésticos. Apesar da absurda colocação pronominal, a primeira conclusão lógica do dia.

7 Comentários:

Blogger lela disse...

hahahahhaaaa.

quero fazer compras com você. pelo jeito a diversão é garantida! :]

sábado, fevereiro 11, 2006 11:01:00 da tarde  
Blogger Jeferson Ferreira disse...

cristo picado... imagina com cerveja, hein... que comunhão!

domingo, fevereiro 12, 2006 3:42:00 da tarde  
Blogger sem cantigas disse...

não te preocupes o teu português não é nada atrofiado!
;-)

domingo, fevereiro 12, 2006 7:02:00 da tarde  
Blogger Onapomona disse...

rá, rá, rá...
Eu imaginava que suas "compras em família" não deveriam ser muito, digamos,normais... mas você superou-se!

segunda-feira, fevereiro 13, 2006 8:27:00 da tarde  
Anonymous dani disse...

bonequinhos bíblicos...

perturbador.

terça-feira, fevereiro 14, 2006 8:09:00 da manhã  
Blogger Sergi-Domenech Ferrer i Vernau disse...

Lela,
Não sei não, costumo ser atacado de mau-humor quando dessas ocasiões; por isso que as coisas acontenecem.

Jeferson,
Amen, Fra Diavolo.

Sem cantigas,
Fico contente da sua afirmação; eu gosto da nossa língua.

Camila,
Facto... tanto que as evito o máximo que posso, mas, às vezes são inevitáveis.

Dani,
Eu que o diga. Ainda bem que o Estado é laico... apesar daquele «Deus» no Preâmbulo da Constituição.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006 1:51:00 da tarde  
Blogger sem cantigas disse...

eu também! é a única coisa que me faz sentir portuguesa!

domingo, fevereiro 19, 2006 8:31:00 da manhã  

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