domingo, agosto 22

«Os sonhos são como pedras de gelo: derretem sob o calor da rotina e do desespero.»

A minha imaginação um dia teve asas grandes; planejava um belo futuro. Mas isso foi há boa dezena de anos atrás. Hoje ela desespera-se em ter de ser pedestre para não comprometer a minha parca sanidade metal. Viver privado, qual monje; parafusado ao chão, qual poste; com cara de quadro renascentista, qual bancário. Ter de agüentar clientes lamuriosos e chorões que conseguem acabar com o dia de qualquer cristão. «Si es así la vida, ¿para qué vivir?».

Cansa. Tudo cansa e tudo enoja; inda mais quando não se vê luz sob densa neblina... a qualquer hora pode chegar-se o nosso barco a um escolho, a um rochedo agudo emerso e nada. E afinal, para que tanto sofrimento, se um dia terminamos tudo do mesmo jeito? Tudo é vaidade vã.

A melancia

Numa avenida movimentada duma grande cidade, uma melancia estava parada num ponto de ônibus. Logo depois de alguns minutos, um navio transatlânico virou a esquina; o destino era aquele que servia à melancia: Lecce - Itália. Porém o navio não tinha escadas e a melancia havia sido amarrada no marco de madeira do ponto. A única lembrança eterna da Itália que lhe ficou foi uma folha do Corriere della Sera que desprendeu-se de uma das cabinas e cubriu-a por toda a eternidade.
O navio foi embora e a esperança que se lhe vislumbrou à melancia virou um cruento remorso de estar fixa ao ponto de ônibus, coisa que até então aparecia-lhe como normal.

Il melone d’acqua

In un viale aggitato di una grande città, un melone d’acqua stava sulla fermata. Dopo qualche minuto, una nave transatlantica appare all’angolo; il destino era proprio quello che serviva al melone: Lecce - Italia. Però la nave non aveva la scalina e il melone era preso accanto il poste di legno della fermata. L’unica rimembranza eterna dell’Italia che gli restò, fu un foglio del Corriere della Sera e lo coprì per tutta l’eternità.
La nave se ne andò e la speranza che ribrillò il melone diventò crudo rimpianto d’essere fisso sulla fermata, cosa che fino allora gli pareva abbastanza normale.

2 Comentários:

Blogger fatima disse...

Queria saber se essa citação é sua mesmo:
"Os sonhos são como pedras de gelo: derretem sob o calor da rotina e do desespero"
É?
Gostei muito... Quero postar em algum dos meus pensamentos no meu blog... posso?

domingo, agosto 22, 2004 2:16:00 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Prezado Melão-D'água Holandês, mire-veja:

"(...)
Tudo na natureza é perfeitamente real, incluindo a consciência, não há absolutamente nada com que se preocupar. Não apenas as correntes da Lei foram quebradas, elas nunca existiram; demônios nunca protegeram as estrelas, o Império nunca começou, Eros nunca deixou a barba crescer.

Não, escute, o que aconteceu foi isto: mentiram para você, te venderam idéias de bem e mal, te deram desconfiança de seu corpo e vergonha de sua profetização do caos, inventaram palavras de nojo para o seu amor molecular, te hipnotizaram com desatenção, te entediaram com a civilização e suas emoções usurárias.

Não há transformação, não há revolução, não há luta, não há caminho; você já é o monarca de sua própria pele -- sua liberdade inviolável aguarda por ser complementada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política do sonho, urgente como o azul do céu.

Repelir todos os direitos ilusórios e hesitações da história requer a economia de uma lendária Idade da Pedra -- xamãs e não padres, bardos e não senhores, caçadores e não polícia, coletores de uma indolência paleolítica, gentis como sangue, ficando nus por um sinal ou pintados como pássaros, envenenados com a onda da presença explícita, o eterno agora sem relógio.

Agentes do caos lançam olhares flamejantes a qualquer coisa ou a qualquer um capaz de testemunhar sua condição, sua febre de "lux et voluptas". Estou desperto apenas em relação ao que amo e desejo ao ponto do terror -- tudo mais é apenas mobília coberta, anestesia cotidiana, merda no lugar de cérebro, "ennui" sub-reptício de regimes totalitários, censura banal e dor inútil.

Avatares do caos agem como espiões, sabotadores, criminosos do "amour fou", nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, com a educação de bárbaros, irritados com obssessões, desempregados, sensualmente transtornados, anjos-lobos, espelhos para contemplação, olhos como flores, piratas de todos os signos e significados.

Aqui estamos rastejando nas rachaduras entre os muros da igreja estado escola e fábrica, todos os monolitos paranóicos. Cortados da tribo pela nostalgia feroz nós cavamos um túnel atrás de palavras perdidas, bombas imaginárias.
(...)"

Abraços,
Buu, http://bcbuu.zip.net

domingo, agosto 22, 2004 9:00:00 da tarde  

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